Sobre


Ⓒ2014 artur / by-artur.com Sara Castro Make Up





























O dia em que me tornei vegana

Tomei a decisão de adoptar este estilo de vida depois de ver o documentário Earthlings, que resume, de uma forma profunda e muito realista, todos os aspetos que se encontram inerentes ao veganismo. A causa animal foi sem dúvida o motor de arranque. O confronto com a realidade da exploração animal, ao fim de 25 anos de existência sem me questionar sobre o impacto tremendo das minhas escolhas na vida dos outros, permitiu-me finalmente agir.

Lembro-me como se fosse hoje do momento em que vi aquele documentário e dos sentimentos que despertou imediatamente em mim. O click tinha sido feito.
Retirei de um momento para o outro da minha alimentação tudo o que tivesse origem animal. Deixei de comprar vestuário e calçado feito de peles de animais, preferindo os tecidos mais naturais e orgânicos, provenientes de comércio justo, como o cânhamo, bamboo ou algodão orgânico. Os produtos de cosmética e limpeza da casa passaram também a ter escrito no rótulo not tested on animals e ganhei preferência por opções mais ecológicas (e amigas da carteira), como as nozes de saponária, shampoos sólidos, óleo de coco, vinagre e bicabornato de sódio, entre outras soluções maravilhosas. Deixei de financiar eventos e espectáculos que promovem a exploração animal, como circos, touradas ou zoológicos.
O que começara com uma motivação ética, rapidamente se tornou num estilo de vida saudável que melhorou significativamente a minha vida.

Foram (e continuam a ser) várias as fontes de inspiração. Entre sites, blogues e livros, portugueses e estrangeiros, pessoas que fui conhecendo ao longo do tempo e outras tantas que ainda não tive a oportunidade de conhecer. Não tive acompanhamento de um nutricionista, por não sentir que fosse necessário. Sabia que o meu corpo estava a reagir bem à mudança. Fui encontrando ao longo do tempo as respostas para todas as minhas dúvidas.


A alimentação




As proteínas são constituídas por aminoácidos, que desempenham inúmeras funções no nosso corpo . O nosso corpo sintetiza alguns aminoácidos, mas existem outros que só adquirimos através da alimentação, os chamados aminoácidos essenciais. Esses aminoácidos são encontrados em diversas fontes alimentares tanto de origem animal como vegetal. Os alimentos de origem animal são fontes de proteínas completas porque possuem todos os aminoácidos essenciais que o nosso corpo precisa, mas que não é capaz de produzir. No caso dos alimentos de origem vegetal, salvo algumas excepções, não encontramos facilmente um alimento que contenha todos os aminoácidos essenciais, sendo portanto consideradas proteínas incompletas. No entanto, existem algumas combinações alimentares que complementam os aminoácidos entre si, formando proteínas de alto valor biológico, como é o caso da leguminosa + cereal integral + oleaginosa. Não precisamos de ingerir estes três grupos de alimentos na mesma refeição, apenas temos de incluir na nossa alimentação diária alimentos destes 3 grupos. 

A respeito do cálcio, encontro-o essencialmente nos vegetais verde-escuros (como os brócolos e as couves) e nos frutos gordos e sementes (como a chia).

Existem ainda muitas ideias erradas associadas à alimentação vegan. Os alimentos de origem vegetal fornecem todos os nutrientes que o nosso corpo precisa. O truque é fazer uma alimentação o mais variada possível. Costumo dizer que quanto mais cor tiver o prato, melhor. Cada alimento (ou grupo de alimentos) tem uma determinada função, por isso se o nosso leque de escolhas for alargado, garantimos que estamos a receber todos os nutrientes que precisamos.  

Para além disso, tenho atenção com a vitamina B12, vigiando-a através de análises periódicas. Tenho o cuidado de consumir alimentos fortificados (levedura de cerveja e leites vegetais fortificados com B12, por exemplo), e faço ocasionalmente suplementação com recurso a comprimidos, muito de vez em quando. Dou preferência também aos alimentos biológicos (explico mais abaixo qual o seu relacionamento com esta vitamina). O importante é ir controlando os valores através das análises.

Mas atenção, a deficiência de B12 não está associada exclusivamente à alimentação vegetariana! Nos dias que correm, todos (vegetarianos ou não) temos mais tendência para ter níveis baixos de B12. Isto acontece porque esta vitamina é produzida maioritariamente por bactérias que se encontram nos solos. Antigamente era mais fácil obter a B12 porque comíamos aquilo que vinha da terra, sem tratamentos e pesticidas. Hoje, é difícil encontrar esta bactéria nos solos. Mesmo os animais criados para consumo humano não vão obter naturalmente esta vitamina, sendo as suas rações fortificadas com B12. 


A adaptação

Não sinto grande dificuldade em manter este estilo de vida. Felizmente, há uma abertura e sensibilidade cada vez maior por parte da nossa sociedade para os vegetarianos/veganos. No entanto, sei que esta facilidade é mais sentida porque vivo na capital, e que o cenário seria bem diferente se vivesse longe de Lisboa. Aqui, são cada vez mais os restaurantes vegetarianos ou com alternativas vegetarianas (ou ovo-lacto-vegetarianas mas que rapidamente se adaptam). Existem inúmeras lojas de produtos bio e vegetarianos com preços cada vez mais acessíveis, e até os hipermercados têm estado atentos a estas mudanças.

Compro as frutas e vegetais em mercados tradicionais ou pequenas lojas de produtos biológicos, os restantes produtos (cosmética, produtos de limpeza, etc) compro através da Internet ou em lojas especializadas. 

Em relação à roupa e calçado, tenho atenção às etiquetas de forma a garantir que não foram utilizados na sua produção produtos derivados de animais como lã, peles ou seda.

Não gasto mais dinheiro agora do que gastava anteriormente. Em relação à alimentação, gasto praticamente o mesmo. Encho o frigorífico e a despensa com muita fruta e vegetais (quase sempre biológicos), cereais integrais, leguminosas, oleaginosas. Trata-se apenas de saber fazer as escolhas certas. As leguminosas secas por exemplo (grão, feijão) são excelentes fontes proteicas com preços muito acessíveis, bem como os vegetais e frutas da estação (e não importados).

A diferença de preços encontra-se essencialmente nos produtos processados vegetarianos, quando comparados com os não vegetarianos (iogurtes, bebidas vegetais, natas vegetais, queijos vegetais, etc), mas estes não são de todo a base da alimentação vegetariana, são os "extras" como costumo dizer. Podem claro ocupar um lugar na nossa alimentação, mas não precisamos de os consumir em tanta quantidade nem todos os dias. Ainda assim, como costumo referir nos workshops, mesmo que gastemos um pouco mais na alimentação vegetariana, (principalmente se optarmos sempre por produtos biológicos) estaremos a poupar na conta do médico e da farmácia a médio/longo prazo. 

Mesmo nos cosméticos e produtos de limpeza da casa, encontramos alternativas muito ecológicas e económicas. Já ouviram falar por exemplo das nozes de saponária para a lavagem da roupa/loiça/carro etc? Ou do uso do bicabornato de sódio e vinagre para limpeza da casa, eliminar manchas e nódoas? 


Mudar de vida

Com a descoberta do veganismo descobri também uma paixão pela cozinha 100% vegetal. Alguns meses depois tomei uma decisão que implicou uma mudança significativa na minha vida. Larguei o trabalho de auditoria numa consultora multinacional para me dedicar exclusivamente a um projeto desenhado por mim, com o objetivo de inspirar outras pessoas para um estilo de vida mais saudável, ecológico e compassivo. Surge assim A Cozinha Verde, algures em Maio de 2013.
O processo de mudança não foi fácil, ou não fossemos nós animais de hábitos, mas a partir do momento em que tomei a decisão, senti imediatamente que tinha feito a escolha certa. A verdade é que me fui apercebendo ao longo daqueles anos em que trabalhei em auditoria, que aquilo não me realizava nem acrescentava algo mais à minha vida. O veganismo foi para mim o impulso para ir atrás dos meus sonhos.
Para além da mudança de rumo profissional, o impacto do veganismo na minha vida foi também visível a outros níveis. Tornei-me uma pessoa mais emocional e compassiva, mais tolerante. Menos stressada e ansiosa, e com uma vontade gigante de mudar o mundo! Percebi que somos NÓS a mudança que queremos ver e passei de agente passivo na sociedade para agente ativo. Costumo dizer que A Cozinha Verde é a minha forma de ativismo. <3
Por último, mas não menos importante, o veganismo trouxe-muitos benefícios no que toca à saúde. Mais energia e atenção, menos medicamentos e doenças.

A minha rotina mudou drasticamente. Aprendi a trabalhar sozinha. Pelo facto de trabalhar muito a partir de casa, aprendi a organizar-me e a gerir da melhor forma o meu tempo. Aprendi a não ter horários certos e a ter auto-disciplina. Aprendi a controlar a ansiedade e a aceitar a imprevisibilidade do meu trabalho. Tudo isto não seria possível se não gostasse verdadeiramente do que faço. Se não vibrasse a todo o momento com isto. Se não sorrisse todos os dias pelas palavras bonitas e sentidas que ouço das pessoas que conheço nos workshops, que me fazem encomendas ou que me enviam mensagens a pedir-me ajuda. Sinto que estou a fazer a diferença na vida de alguém. E por isso, tudo isto vale a pena.


























Impacto na saúde 

Ao adotar uma alimentação vegan, eliminamos totalmente a ingestão de colesterol e diminuímos drasticamente o consumo de gorduras saturadas. Opto por fazer uma alimentação o mais natural possível, evitando os produtos processados. Prefiro também os alimentos integrais aos refinados, sendo que estes últimos são regra geral calorias vazias, e muito pobres em nutrientes.

Todos estes factores contribuíram para melhorar significativamente a minha saúde. Perdi os quilos que tinha a mais, de forma saudável e natural. Nunca mais fiquei doente, e deixei de precisar de comprimidos para o que quer que fosse. As análises que faço periodicamente apresentam valores excelentes, e não tenho carências nutricionais. Sinto que o meu corpo está nutrido, deixei de ter a pele seca, coisa que sempre me caracterizou. Melhorei os meus níveis de concentração e memória, e sinto-me sempre com energia. Aprendi a conhecer o meu corpo e a saber a todo o momento o que ele precisa.

O impacto do veganismo na minha vida foi enorme, a diversos níveis. Tornou-me uma pessoa ainda mais emocional, mais atenta às necessidades dos outros. Fez-me olhar para dentro de mim, de uma forma como nunca tinha feito. Ajudou-me a conhecer-me, a revelar a minha essência. 


Os meus conselhos para quem quer começar

1. Escutem o vosso corpo. Ele diz-nos tudo aquilo que precisamos de saber, e indica-nos o melhor caminho a seguir, o que melhor resulta connosco. Desde uma mudança imediata e mais radical (como no meu caso), a uma transição mais suave e progressiva, a resposta está sempre em nós.

2. Informem-se. Leiam. Estudem muito. Procurem conhecer mais sobre esta alimentação e estilo de vida (Os workshops da A Cozinha Verde podem ser uma boa ajuda nesta fase). Aconselhem-se com quem já passou ou está a passar pela mesma situação. A informação é a nossa melhor arma, é ela que nos impede de cometer erros.

3. Por último, mas não menos importante, retirem prazer das pequenas conquistas, do vosso novo estilo de vida. Não encarem nunca esta mudança como uma “obrigação” ou “dieta”, mas sim como uma escolha consciente. Divirtam-se muito nesta viagem de descoberta de um novo mundo, cheio de cor, sabor e vida.


Ⓒ2014 artur / by-artur.com Sara Castro Make Up

11 comentários:

  1. Tão inspirador! Já o li duas vezes e cada vez que o li fez-me acreditar em tantas coisas. Ler isto, preencheu-me o olhar e deu vida ao meu coração: "afinal é possível" - disse ele. E assim vou continuar, lembrando este texto e sabendo que afinal é possível. Grata. ♥

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    1. Obrigada Mariana! :) Que bom que este texto te tenha servido de inspiração... era mesmo esse o objetivo! Um beijo muito grande, Filipa ♥

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  2. Descobri este blog agora, por acaso. Agora, que voltei a querer "deixar a carne" (anteriormente, fui vegetariana mas durante uns meses apenas...). Voltei a ver também a ver o Earthlings, desta vez sem chorar desalmadamente e sem interrupções, o que me fez abrir os olhos para a tortura a que os animais são sujeitos :( O meu único problema é que não moro sozinha e, apesar do meu namorado gostar de comida vegan/vegetariana, não dispensa a carne e o peixe... Mas hei-de conseguir! Obrigada pela inspiração =)

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    1. Força Inês! No que puder ajudar, estou aqui. :) <3

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  3. Olá Filipa!
    É tão bom ver que há cada vez mais pessoas a mudarem a sua alimentação!
    Eu sou vegan há um ano quase, mas neste pequeníssimo periodo de tempo já consegui melhorar uma doença crónica, mudar completamente o meu olhar sobre mim própria e sobre o mundo, mas acima de tudo... Sentir paz.
    Depois de cairmos em nós, e sabermos como é que TODA a indústria animal, ou farmacêutica, ou alimentar nos manipula (Oh tão bem!) para consumirmos aquilo que eles querem, não há volta a dar se não mudar.
    Força com o teu projecto!
    Eu também estou em fase embrionária de um ebook vegan, vamos lá ver!
    Há que espalhar a palavra, e olha, contra factos não há argumentos!
    E ambas sabemos que este estilo de vida é facto atrás de facto!

    Um beijinho imenso!
    Parabéns pelo projecto!

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    1. Olá Fá! Obrigada!! :) Um beijinho grande e parabéns pelo teu projeto!! :)

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  4. Sandra Almeida01 fevereiro, 2016

    Olá Filipa,

    Antes de mais parabéns pelo seu projeto e pela partilha.
    Estou à procura de algas selvagens azuis-verdes e estou com alguma dificuldade encontrar. Pode, p.f., indicar a marca que aconselha e onde posso comprar?

    Obrigada!
    Sandra

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  5. Olá,
    Gostei imenso, parabéns pelo trabalho e pela força de vontade.


    Força!

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    1. Olá Guilherme! Agradecida pelas palavras! :) Um beijinho

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  6. Filipa é mesmo inspiradora. No workshop que tive o prazer de participar na loja amor bio, fiquei muito mais sensibilizada para a mudança. Eu tenho feito o percusrso de transição, começei por deixar a carne, depois o peixe esporádicamente ou quando não tinha laternativas fora de casa. Agora estou na fase de abolir o peixe, o queijo que tem sido o mais dificíl mas que aos poucos já estou a conseguir e os ovos embora com estes também não sinta grande dificuldade. Estudei e também fiz a mimha escolha profissional mas sem duvida que o meu desejo é o mesmo que o da Flipa, sinto que me apetece "partir para outra" e assim continuar a ajudar pessoas não pela enfermagem mas a fazer boas escolhas alimentares, a melhorar a sua saúde e a prevenir doenças e sobretudo para que tenhamos um planeta mais sustentavél. Paranbés pela coragem e pela força.

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    1. Olá Ana! Grata. :) Desejo-lhe muita força e boa sorte no seu caminho. O mais importante é mesmo a nossa vontade de mudar. Beijo grande <3

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